Ouço o passar das horas sobre a crista
da imensa tarde que hoje me contenta.
Rabisco-lhe a lembrança sumarenta,
enquanto a noite ao longe já se avista.
Quero esticar-lhe o sumo, o azul, a ementa
e assim manter o sol ali, na vista.
Tal ilusão, de fato, me conquista,
pois nela o ocaso nunca se acinzenta.
Inspiro suavemente a seiva e a cor,
um flavo tom e gotas de esplendor,
que cingem de esperança a minha taça.
Nas asas da poesia que me enlaça,
cansada a carne, o espírito se eleva,
e escrevo versos entre a tarde e a treva.
Imagem: arquivo pessoal